domingo, 5 de agosto de 2001

DOIS PENSAMENTOS E UMA MESMA IDADE

A relação entre a nossa idade e nossas vivências, é algo curioso, pois Quase nunca estão em sincronismo. Enquanto medimos nossa idade com o tempo, dia após dia, noutro ponto, medimos nossa vivência de acordo com o desenvolvimento intelectual atingido, resultado direto dos conhecimentos e da sabedoria acumulados através de nossas experiências, que irão determinar a qualidade de nosso dia a dia em um futuro nem sempre tão distante. Como exemplo conto a seguir as histórias de Paulo e Débora, dois jovens com a mesma idade (cronológica) 18 anos, mas visão de vida muito divergente.

Paulo foi “muito bem” criado e sempre teve a sua disposição tudo o que quis. Acordava tarde e tinha preguiça para tudo. Aprendeu cedo que para ter o que queria era só chorar e pronto (às vezes, nem precisava). Seus pais tinham uma situação financeira definida e privilegiada. Eram donos de uma empresa bem sucedida. Os mais próximos consideraram “um milagre” ter conseguido terminar o 2o Grau, afinal o “menino” não estudava de jeito nenhum. Paulo foi crescendo neste ambiente de fartura e facilidades, não era habituado a ouvir a palavra não e mantinha um ar esnobe, só para fazer “um tipo”.

Débora, de origem pobre, sempre viveu com dificuldade, aprendeu cedo com seus pais que a vida deve ser encarada com muita luta e força de vontade. Sua força e obstinação vinham da sua vontade de querer mudar a realidade a sua volta. Após concluir o 2o grau com sacrifício, enfrentaria outro grande desafio: passar no vestibular para medicina da qual aprendeu a gostar ainda menina ao observar o trabalho comunitário de uma jovem médica que atendia seu bairro. Seu sonho era poder ter seu próprio consultório e ainda reservar tempo para atender comunidades carentes.

Paulo não se preocupava com nada e também não tinha pressa. Afinal pressa para quê... “Tudo estava tão bom...” Seus maiores interesses eram reunir-se com a “galera” na praia ou ser visto, de preferência no barzinho da moda. Ah! E não era só isso... Também se interessava muito por carros, motos e jet-skies. Quando entrou na faculdade, se decidiu por fazer direito, logo depois, mudou para engenharia e mais a frente parar de estudar. Preferiu trabalhar na empresa do pai. Assumiria o cargo de “Diretor de Marketing”, apesar dos seus conhecimentos de mercado não ultrapassarem os limites de sua mesa. Se já era esnobe, ganhou motivação maior para continuar a sê-lo, afinal era o “Diretor de Marketing” e ainda filho do dono. O que mais gostava de fazer na empresa era mandar servir café e dar ordens, além de (é claro), receber seus amigos em sua bela sala. Sua mesada virou um belo pró-labore...

Débora, por sua vez, estava lendo um interessante livro sobre Marketing Social. Ela queria exercer a medicina e desenvolver projetos comunitários. Por sempre ter lido muito, Débora, além de ter se tornado uma pessoa bastante esclarecida, desenvolveu uma excelente expressão verbal e contrariando as estatísticas (apesar das dificuldades), conseguiu se formar. Algum tempo depois, trabalhando num grande hospital, já tinha feito fama por ser muito carinhosa com todos, principalmente com os pacientes. Dentro de poucos anos, estava com seu consultório próprio e já tinha um orçamento que lhe permitia ajudar (e bem) aos seus pais. Era uma vitoriosa!

Quanto a Paulo, logo depois de ter assumido o Depto. de Marketing, a empresa entrou em sérias dificuldades e veio a falir. O pior é que as experiências de Paulo não lhe ajudariam muito. Ele ficou estagnado no tempo, não fez cursos e não procurou se desenvolver. Sua situação tinha ficado extremamente difícil e Paulo já não podia mais chorar. Um triste fim ou quem sabe um bom começo... Suas experiências constituem o seu maior patrimônio. Cuide para que sejam boas.

Antônio Carlos Rodrigues

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